24 de jan. de 2015



TEATRO
peça 1

A VIDA E A MORTE DE ALOÍSIO RESENDE
PRIMEIRO ATO

Cena única: Num bar da cidade Raimundo bebe sem desviar a atenção do jornal ''Folha do Norte'', onde lê as notícias do dia em voz alta:
RAIMUNDO - ''Segunda-feira, 12 de janeiro de 1948, sete anos sem Aloísio Resende. Sua memória permanece viva entre nós, do jornal Folha do Norte. Nosso colega, nosso irmão de lutas deixou um vácuo imenso. Aloísio foi um talento poético que, não se deixando sufocar pelo excesso da leitura, permitia falar livre à alma, num lirismo puro sem os espasmos de classicismo comprimido e sem querer copiar os mestres num embrulhar de clássico com romântico sem lógica. Ele não se permitia corromper pelas novas correntes contemporâneas onde o belo é deixado de lado. Seus versos continuam sendo lidos e admirados. Perpassa, pelos nossos ouvidos, como brisa suave e fresca, a musicalidade de ''Salomé'', a perfeição de ''Lagoa'', os ritmos africanos de ''Candomblé'' . Você será imortal". Seus amigos da ''Folha do Norte''.

RAIMUNDO – (falando para fora num misto de embriagueis e lembrança) ''Ele não morreu, continua vivo na memória ... quantas saudades Aloísio! Lembro-me, velho amigo... lembro-me de quando você viajou para Pernambuco, depois veio morrer na Feira. Chegou aqui fazendo alarde de muita leitura, poeta, falante e bonito. Parece que estou vendo-o cabelo muito bem arrumado, roupa impecável... bonita aparência... lendo e relendo seus versos..., eram tantos: ''Demônia'', '' A morte de Salomé'', ''O cangaceiro'' ... as pessoas ouviam envoltas, intelectuais balançavam a cabeça e arregaçavam os lábios inferiores num gesto de admiração por ouvir versos tão bem elaborados. Depois... entregou-se a boêmia. Uma força estranha o dominava e ele jogou fora seus sonhos, seus ideais.

(FLASH-BACK – Raimundo volta no tempo e relembra os últimos dias do poeta naquele mesmo bar)

ANTONIO LOPES – (entra no bar) Raimundo pensei encontrar Aloísio aqui. Você sabe onde ele está?

RAIMUNDO – Informa: ele não esteve neste bar hoje.

VALMIR – (o proprietário do botequim, embriagado) Mas, não é difícil adivinhar. Zinho Faúla deve ter ido buscar inspiração lá no terreiro de mãe Filhinha (risos). Mas num se vexe não Antonio Lopes que, aqui também, é pouso certo dele.

RAIMUNDO – sente-se Antônio, espere um pouco.

VALMIR – não disse? Olha Zinho Faúla chegando.

ALOISIO – Meu amigo Antonio Lopes (diz Aloísio batendo nas costas de Antonio), veio a minha procura? Eu também queria vê-lo, preciso ouvir a sua opinião sobre a minha mais recente produção poética. Ouça. (retira os escritos do bolso e começa a declamar)

Demônia
''Grega estátua do amor do derradeiro sonho
De um triste artista aflito, em báratros,
rolando Sinto que sofro muito e que padeço quando,
Nesse mármore vivo, acaso, os olhos ponho''.

És todo o meu prazer e és todo o meu tormento
- o meu cálix de fel e o meu cálix de gozo
– Que trava aos lábios meus, mais forte e venenoso,
Quanto mais esquecer-te, em pranto, às vezes tendo.
Não sei o que de estranho ou de mistério existe
Nos teus olhos fatais de enraivada pantera.
Se deles o desdém me humilha e me exaspera.
Também, lhe devo a glória imensa de ser triste.
''Pratica, pois, na vida, o primeiro bem,
Satânica mulher, indefinível, louca:
Deixa-me, então, beber na taça dessa boca
A cicuta mortal que teu beijo contém !''

ANTONIO LOPES – Bravo!!! (batendo palmas com muito entusismo). Estão maravilhosos estes versos. Apaixonados. Você está apaixonado Aloísio? Quem é esta musa inspiradora?
ALOÍSIO : - Não Antônio,eu não estou apaixonado, mas, já estive. Foi no Pernambuco, moça linda, maliciosa ... chamava-se Maria das Dores. Seus pais eram donos de engelho mas, passou. 

ANTONIO LOPES – então de onde veio a inspiração para escrever tão perfeitos alexandrinos? 

ALOÍSIO – Ora! Em Bilac, onde mais poderia ser? Mas, e você veio me procurar amigo?

 ANTONIO LOPES – Recebi hoje cedo uma correspondência do poeta Elpídio Bastos, seu edmirador, que pedia para lhe entregar este bilhete. 
ALOÍSIO – (ler em voz alta) "Meu ilustre confrade, fiquei deslumbrado com a leitura de "O cangaceiro". Há tempo que não tinha o prazer de ler alexandrinos tão perfeitos, versos tão másculos e tão elegantes. Entretanto, ouvi falar de ''A morte de Salomé'' e o motivo desta é assegurar-me de também poder me deslumbrar na leitura deste. Peço que me envie uma cópia autografada. Doutra lhe enviarei reminiscências do ''Café Progresso'', onde a sua passagem se tornou motivo de profunda admiração, pelo seu talento indiscutível e perfeito. Um abraço cordial do confrade amigo Elpídio Bastos''.Recife – janeiro de 1940
ANTONIO LOPES – bom, o bilhete esta entregue agora me disperso. (volta-se ligeiro e pergunta) por que você não vem também Aloísio?
ALOÍSIO – (tosse) Vá Antônio, irei em seguida. Preciso colocar os assuntos em dias com meu amigo Raimundo depois, irei até à redação do jornal para em seguida chegar em casa. 

ANTONIO LOPES – Aloísio eu sei que se conselho fosse bom ninguém dava, mas cuide melhor da sua aparência, pense na sua saúde e no seu talento. 
ALOÍSIO – (tosse) Eu vou pensar nisso! (Aloísio senta-se na mesa com Raimundo que está concentrado lendo o jornal)
ALOÍSIO – o que você está lendo de tão importante Raimundo? 
RAIMUNDO - Estou lendo sobre a Lei de número 1320 de 16 de junho de 1873, que elevou a categoria de cidade, o distrito de Feira, conferindo a denominação de Cidade comercial de Feira de Santana.
ALOÍSIO – Na Feira de Santana Raimundo, todos se interessam pelas letras, mas, de câmbio (risos). Feira, é uma cidade de muitos sortilégios onde tudo pode acontecer.(risos) Caiu bem a denominação de cidade comercial. Vamos Raimundo, vamos até o Terreiro de mãe Filinha, depois, preciso ir à redação do jornal.
RAIMUNDO – mas, o que é que você vai fazer no Terreiro posso saber? Essa vida boemia não te levará a nada homem, você tem talento, todos dizem, eu porém, digo é que você não tem juízo. (Raimundo bebe mais um trago de cachaça).
ALOÍSIO – (retira no bolso alguns papeis entre os quais procura um especifico) Achei! Eu sei o que estou fazendo Raimundo, vou ao terreiro buscar inspiração nada mais. Escute (começa a ler) 
IEMANJÁ
Vai dançar Iemanjá, protetora bonita
Deste rico rincão da terra brasileira.
No centro do terreiro, onde o samba se agita,
Em negras ondas solta a basta cabeleira.
E um gesto ali se ver, toda de azul e branco,
A dona do sentir das donzelas formosas,
O corpo manejando em doloroso arranco,
Tendo a boca a sorrir em pétalas de rosas.
Santa dos corações que sofre por amor,
Deusa do bravo mar, das crisolinas águas.
A um só tempo és estrela e ao mesmo tempo às flor,
Que transmuda em prazer as grandes fundas mágoas. 
RAIMUNDO – (bate breves palmas) 
ALOÍSIO – Está incompleto, preciso terminar, por isso vou ao Terreiro. O meu sonho é juntar todos os meu poemas num livro intitulado: ''O Caxixi''...
RAIMUNDO – (embriagado) faúla é o que você é .... inspiração no candomblé?????... HUM !!! ( balançando a cabeça num gesto de negação ) poesias todas num livro ... O Caxixi, HUM !!! bebendo desse jeito?(balançando a cabeça negando).

DESCONHECIDO - (entra no bar e dirige-se ao proprietário, Valmir, que está embriagado atrás do balcão) Por gentileza senhor, o senhor conhece um poeta por nome de Aloísio Resende, autor de ''A Morte de Salomé ? 
VALMIR – o Quê?
DESCONHECIDO - Por gentileza senhor, o senhor conhece um poeta por nome de Aloísio Resende, autor de ''A Morte de Salomé ? 
VALMIR – Bom, a tal Salomé eu não conheço não, mas Zinho Faúla sim, olha ele lá (apontando). É ele que o senhor procura.
DESCONHECIDO - Zinho Faula é Aloísio Resende ? 

VALMIR – (não responde) Aloísio este senhor quer falar com você! 
ALOISIO – (tosse) pois não? (quase que embriagado).
DESCONHECIDO - Não. Não! Foi um equívoco. Desculpe-me ! Não creio ser o senhor, autor de ''A morte de Salomé''. O autor desta composição poética há de aparecer. Dizem que é feirense, porém se tem seu nome, é lêdo engano, é um engano fatal. 
ALOÍSIO – eu sou Aloísio Resende, autor de "A Morte de Salomé", não aparecerá outro. 

DESCONHECIDO - O autor de tão belo poema, que me fez entrar em Feira para conhecê-lo, nunca imaginei que o encontrasse bêbado. 
ALOÍSIO – E o que tem o poema haver com a vida particular do autor? 
DESCONHECIDO – desculpe moço. Já o conheci. Foi um prazer.
RAIMUNDO - Aloísio, se cuida, larga essa vida de boemia, saí desse bar, você vai acabar morrendo, sem amor, de desgosto, de bebida, aí não tem mais poesia, nem candomblé, nem alegria, só tristeza. 
ALOÍSIO – (bebendo mais um trago) Mas, olha quem fala. E por que você não para de beber e não vai cuidar da sua vida? (arrependido, voz calma) Muito bem de saúde eu já não me sinto faz algum tempo. Tuberculose Raimundo tu bem sabe.
RAIMUNDO - Eu me preocupo com você que tem futuro, eu não, minha desdita eu já construí faz tempo, hoje bebo para esquecer. Mas você não, você trabalha em um jornal, é poeta, é aplaudido, fez bonito no Recife. Te cuida Zinho. 
ALOÍSIO – (Tosse): Acho que vou para casa Raimundo, não me sinto muito bem... 

(Aloísio sai, as luzes no palco se apagam. Ouve-se o toque surdo do tambor no terreiro e no fundo do palco alguém perguntar em voz alta: quem morreu? A mesma voz responde nun grito abafado, surdo e prolongado: Aloísio Resende. Ouve-se cada vez mais baixo o toque do tambor e ouve-se a poesia que é declamada em voz grave: 

Salomé, Salomé, deusa da Galiléia. 
Do nobre Macheronte a lúbrica ninféia, 
Onde és tu, que não vens inteiramente nua,
Dançar à claridade apática da lua?
 Parece a natureza em lídimo transporte, 
Um culto vem render ao teu divino porte.
E tu Salomé, flor de volúpia do Oriente, 
Não vives, como outrora, apaixonada e ardente,
 Sarabandeando o corpo em volta repentinas 
No bailado dos véus ao toque de ocarinas.


FIM




NARRADOR I - A encenação que iremos assistir, conta o surgimento da nossa cidade princesa. Deus foi o grande arquiteto e os homens, apesar de trocarem o nome das coisas e até das pessoas, foram os trabalhadores desta grande obra. João Peixoto Viegas havia comprado uma terra muito grande, depois de muito anos seus netos resolveram dividi-la em fazendas e expor à vende. Cada fazenda ele deu um nome, ma delas chamava-se ''Olhos D'água". Um casal chegando aqui, gostou da fazenda e comprou-a. Este casal era Domingos Barbosa de Araújo e sua esposa Ana Brandão. Viveram felizes muitos e muitos anos na fazenda que deram o nome de "Santana Ana dos Olhos D'água". Não tiveram filhos. Um dia tiveram a idéia de construir uma Capela e foi aí onde tudo começou. Dona Ana Brandão ficava muito brava quando os criados e até seu esposo insistiam em chamá-la carinhosamente de Brandôa. Além do mais, os tropeiros e feirantes repousavam a sombra das árvores perto da Capela e Domingos não gostava. Vamos vê como foi isso de perto.

Cenário:

Sala de uma antiga casa de fazenda (no tempo em que os santos enfeitavam as salas das casas), uma senhora rezando ao pé da santa, ajoelhada com o terço na mão. É Ana Brandão.

ESPOSO: (adentra a sala gritando) Ana Brandoa, Ana Brandoa

ANA:Misericórdia! Não vê que estou rezando? Pare de me chamar Ana BRANDOA porque meu nome é Ana Brandão,(explicando também a platéia), o que o senhor meu marido quer nesse alvoroço todo?

ESPOSO: (com os olhos arregalados) Os viajantes que estão lá outra vez, agora estão tomando banho na Fonte da Nação, alguns estão trocando galinha por rapadura, açúcar por feijão, por verdura, cereais, tudo isso na capela da tua santinha Ana, tu não vai fazer nada?

ANA:Ora! deixe o povo em paz Domingos meu esposo. São viajantes, tropeiros que mal há em eles pararem para descansar a sombra das árvores, se banharem nas águas da fonte também, rezam na capela da minha santinha?

ESPOSO: Mas será que eles se lembram mesmo de rezar? Eu acho que eles so pensam em comercializar.
ANA: Nem você me deixa rezar. Escafêda-se daqui (tangendo-o com o polegar) EU QUERO REZAR!(Retoma a posição inicial para rezar)

CRIADO: Donana Brandoa! Donana Brandoa!

ANA: Mas será possível? Meu nome é ANA BRANDOA,(explicando também a platéia) O que é que você quer criado indolente? Não vê que estou rezando?

CRIADO: Donana, (cansado), eu vim avisar que tem um pessoá, lá debaixo das árvores, defunto da capela, chegaram montado em cavalos e bestas, jegues e jumentos, estão desmontando os caçoá, armararam rede pro mode descansar, as mulé tão a rezar e tem até menino brigando. Aquilo lá ta virando uma feira.

ANA: - Deixe o povo em paz Severino. Eu preciso rezar, eu tenho que rezar. Vá plantar batata! CRIADO: Sim senhora!(Retoma a posição inicial para continuar rezando)

CRIADA: Dona Brandoa, Dona Brandoa (aflita)

ANA:Mas será o Benedito? Meu nome como é pessoal? (Voltando-se para a platéia), a platéia deve responder que é Ana Brandão. - Será que hoje eu não rezo? (Voltando-se para a cena), o que é mulher? Tu também vem falar dos tropeiros que estão lá na capela trocando rapadura por dentadura, xarope por caçarola? -

CRIADA: Não donana. Eu vi chegando toras de madeira em quantidade atrelado aos jegues, eles vão montar acampamento, tendas para negociar, vai nascer um comércio mesmo, lá na calçada da capela, eu desconjuro Donana.

ANA: Pois eu vou desconjurar se você não raspar agora mesmo daqui. Eu quero rezar. Deixa o povo negociar, vender o que quiser. Quem sabe lá não nascerá um arraial, depois uma vila, depois uma cidade? Vá já pra cozinha.

CRIADA: (às pressas) Sim senhora.

ANA:Voltando-se para a platéia: E foi assim, gente que tudo começou. Da Praça Monsenhor Renato Galvão ao Distrito de Maria Quitéria originou-se Feira de Santana. O personagem vem à frente se apresentarem e receberem os aplausos da platéia.


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