"Lampião dançava, cantava, compunha e foi poeta" - Nem sei porque escrevi e publiquei esses texto pequeno. Não chega a ser um livro ou é um livro de bolso. Uns chamam de opusculo outros de livrete. Prefiro o segundo.
Este foi lançado pelo MAC – Museu de Arte Contemporânea de Feira de Santana/2000. Nessa noite outros trabalhos pelo MAC também foram lançados, por exemplo: Roberval e Rubens Pereira, Trazibulo Henrique Pardo Casas, Antonio Brasileiro, Antonio Alves da Silva, Luis Freire e Azzais.
Leia o livro na integra:
PREFÁCIO
A GUERREIRA HELENA
TRAZ A ALMA DE LAMPIÃO
Franklin Maxado, novembro de 2000
Helena Conserva é de Serra Talhada, terra do seu admirado Agamenon Magalhães. Mora em Feira de Santana como muitos outros Pernambucanos e nordestino que vieram para cá ajudar-nos a criar esta capital regional. Aqui, já invocou o espírito do grande poeta feirense Aloísio Resende numa peça teatral. Com a força telúrica que tem traz-nos agora a alma do seu outro conterrâneo Virgulino Ferreira da Silva – o Lampião. Ela o mostra poeta, o que de fato foi, mas que seu determinismo não deixou suplantar o guerreiro.
Helena Conserva e suas leituras como gente da UEFS e das Academias de Letras de Feira, mas deve ter lido muitos folhetos de Literatura de Cordel e sabido de outros tantos casos da tradição oral, além do seu inconsciente coletivo. Talvez, disto venha o maior valor do seu trabalho que, espero vê-lo depois mais ampliado. Ela deve integrar o chamado Grupo Baiano de Estudiosos do Cangaço, que tem hoje em Oleone Coelho Fontes seu maior expoente. Aqui, em Feira, portas dos sertões, ainda estamos esperando as pesquisas de Clóvis Frederico Ramayana para reivindicarmos mais espaço nas estórias oficiais do Brasil onde o fenômeno não existe.
Considero este trabalho de Helena como um mergulho no seu passado pernambucano motivado após a vinda do ‘’Grupo de Xaxado Cabras de Lampião’’, trazido pelo Museu Casa do Sertão em 1998, tendo o escritor Anildomá e sua mulher Cleonice à frente. Helena agora é feirense e eu a apresento da mesma forma de como prefaciei o Livro ‘’Lampião: Mulheres no Cangaço’’, do mestre Antônio Amaury Correia de Araújo. Ela é uma dessas lutadoras nordestinas como as nossas Maria Quitéria e Maria Bonita.
O CANGAÇEIRO POETA QUE DANÇAVA, CANTAVA
E COMPUNHA EM MEIO A CAATINGA
I N T R O D U Ç Ã O
Durante a ação do cangaço pelos sertões, existiram vários grupos de cangaceiros desordeiros que gozaram do respeito e da admiração da maioria da população pobre e oprimida do Nordeste. Odiando a injustiça e o poder sufocante do coronelismo imperante na região, eles eram a referência do povo contra os poderosos. Foram homens de fibra, coragem, inteligências superiores, grandes estrategistas militares, exímios atiradores e dispostos a fazer justiça com as próprias mãos. Semearam o terror contra seus inimigos, desafiaram as Leis, usaram as mesmas táticas de guerrilhas, foram valentes. ‘’Sinhô’’ Pereira que teve a fama de ter sido o professor de Lampião, era um homem muito mais experiente e, consequentemente, mais destemido.
Mas nesse cenário todo, por que somente Lampião se destacou tornando-se o mais famigerado dos cangaceiros, afamado por todo o Sertão, conhecido em todo mundo?
Em torno desse personagem fantástico existe uma grande polêmica: Quem foi Lampião? Um bandido sanguinário, assassino e perverso? Um homem revoltado? Um justiceiro? Herói? Uma inteligência superior?
Ao ler o livro ‘’ Xaxado: Dança de Guerra dos Cangaceiros de Lampião’’, de Anildomá Willans de Souza, compreendi de pronto o resultado da história não contada, o que estava escrito nas entrelinhas, podemos assim dizer.
O afamado rei das caatingas, além de exímio atirador, foi também sanfoneiro, repentista, cantador e poeta.
Anildomá Willans é também autor do livro ‘’Lampião, O Comandante das Caatingas’’, e coordenador do Grupo de Xaxado ‘’Cabras de Lampião’’ e da festa ‘’Tributo a Virgulino’’, realizada na Fazenda São Miguel, no Município de Serra Talhada, onde nasceu o cangaceiro. Só não gosto quando Anildomá diz que respira o cangaço, dorme e acorda com os cangaceiros, e às vezes pensa ser um dos deles. Também, não concordo de maneira alguma com o cartaz que anuncia a festa do bandoleiro no qual está escrito: ‘’Tributo a Virgulino, evento que homenageia o mais famoso filho de Serra Talhada’’. pois dentre tantos filhos ilustres daquela terra, o maior é, sem dúvida, Agamenon Magalhães..
A MÚSICA, A DANÇA E A POESIA
Virgulino Ferreira da Silva, Lampião era descendente de uma morigerada[1] família de pequenos criadores e cultivadores do município de Serra Talhada, Estado de Pernambuco. Um dia mataram uma cabra em sua propriedade e os irmãos Ferreira vingam-se assassinando um desafeto e fogem para o estado vizinho de Alagoas. Começa aí a vida de cangaceiro envolvendo os filhos do velho Ferreira - Virgulino, Antônio, Ezequiel e Livino, que posteriormente morreriam em combates com a polícia. Entre os anos de 1918 e 1919 é assassinado o velho Ferreira, a mando das mesmas famílias que já o haviam perseguido em Pernambuco.
Virgulino junta-se ao bando de Sebastião Pereira, (Sinhô Pereira), e seu objetivo confesso é vingar a morte do pai[2]. Esse motivo aparente, no entanto, tem a função de gota d’água. Em 1922, Virgulino se separa do bando do ‘’Sinhô Pereira’’, na Fazenda Preá, Município de Serrita, comanda um grupo de ‘’cabras’’, formando assim o seu próprio bando.
Assim, como a fama de um cantor atravessa fronteiras por causa da melodia da sua canção, a de Lampião percorreu o mundo. Nem só de guerras vivia aquela gente, pois Lampião e seu bando invadiam uma cidade, usando a mesma tática usada por outros bandos, mas, atacavam cantando, manobravam o gatilho entoando loas e quadras que ficaram no imaginário popular.
À medida que a fama de Lampião chegava numa determinada região, acompanhava a curiosidade do povo pelo seu modo de viver. Então se descobria logo de cara a música, a dança, a poesia etc. Assim como a poesia imortalizou muitos dentre nós, Virgulino foi, também, um imortal. Com a sua fama a nível nacional, foi inevitável o surgimento de grupos musicais de dança aparecendo em público com adereços que lembravam os bandoleiros das caatingas, o chapéu de couro em forma de meia lua, cartucheiras cruzadas no tórax, cantando repertório do cangaço e outras músicas de identidade nordestina.
No Sertão só se falava do cangaço. Nos espaços culturais dos grandes centros urbanos, os artistas se apresentavam caracterizados de cangaceiros, entoando canções do repertório sertanejo, arrancando aplausos das grandes platéias, marcando definitivamente a sua influência na cultura popular e erudita. Alguns grupos musicais surgiram no Rio de Janeiro a partir de 1922, como ‘’Os Turunas Pernambucanos’’, ‘’Os Turunas da Mauricéia’’(1927), e ‘’O Bando dos Tangarás’’, 1928, que arrancavam aplausos nas noites de gala cariocas. Enquanto isso, o Sertão pegava fogo. O grito de Lampião ecoava e os bandoleiros cortavam a caatinga fazendo estripulias e falando de amor:
Tive também meus amores
Cultivei minha paixão
Amei uma flor mimosa
Filha lá do meu sertão
Aproximadamente 13 anos antes da morte de Lampião, em 1925, foi publicado o primeiro folheto em versos relatando as aventuras do cangaceiro. Daí em diante vários gênios da poesia decantaram suas trovas. Nessa época a indústria cinematográfica despertou interesse pelo cangaceiro afamado vendo nele um filão rentável. Benjamim Abraão Botto produziu o filme ‘Lampião, o Rei do Cangaço’, em 1936, rodado nas caatingas do Sertão baiano, com o próprio personagem tido em cena.
O próprio bandoleiro tinha a veia poética, talvez tenha sido influência do meio. Veremos mais adiante como vivia a família de Lampião. Um tipo de herói que impressionava Lampião era a figura do homem de bem. Nas linhas genealógicas de seus antepassados, dos dois lados, paterno e materno, não se aponta um só criminoso profissional. Virgulino se orgulhava dos seus avós que, como seus pais, eram homens de bem, e versejava:
‘’Junto com meus irmãos
Lutamos como heróis
E a luta que travamos
Destemerosa , honramos
O sangue dos nossos avós !’’
Nas festas[3] na casa de Virgulino todos cantavam suas própria composições e de outros também. O pai de Virgulino, homem de bom coração, recebia os parentes e amigos para as festas de casamento de seus filhos, ou para a festa tradicional, em homenagem ao senhor São João:
-‘’ Têja a gosto. Faça de conta qui tá na sua própria casa’’.
Lá fora, estrondavam os foguetões anunciando o princípio da festa ou ‘fonção’. Primeiro a quadrilha. O tocador de harmônico, acompanhado de triângulo, reco-reco e maracá, dera o sinal para começar. As marcas eram tiradas por Virgulino: ‘anarriê’, ‘alevantú’, ‘chãdidama’, ‘outrefuá’... Os pares avançavam, recuavam, girando enfim no balancê embriagante da animação.
O melhor da festa, além do baião, era a dança do coco de roda, formada de pares em torno da fogueira. Vez por outra, o próprio Virgulino, ao mesmo tempo em que fazia o fole gemer nas suas hábeis mãos, tirava, no repente, as loas, bulindo com os presentes, que respondiam em coro, sapateando e batendo palmas com as mãos encovadas para dar som grave, no movimento gingado do passo e furta-passo.
‘’Óia o coco
Segura o coco,
Nesse coco vou vadiá...’’
Virgulino era vigoroso e fluente nos ‘’repentes’’ da poesia improvisada, a qual requer agilidade mental, prontidão de espírito e inteligência viva. Naquele tempo, como depois no cangaço, ocasião houve em que ele manteve longas conversas em versos no repente, enquanto seu interlocutor falava em prosa4.
Eram assim os Ferreiras – gente sociável, boa e amiga, cultuando a alegria de viver, sobressaindo-se Virgulino, tocador, poeta, repentista, compositor e animador de festas, que mais tarde, no cangaço, transformaria seu bando em guerrilheiros alegres, tocando e xaxando, cantando até nos combates:
‘’Meu rifle atira cantando
Em compasso assustador
Faz gosto brigar comigo
Porque sou bom cantador
Enquanto meu rifle trabalha
Minha voz longe se espalha
Zombando do próprio horror!’’
Quando a morbidez do fim das tardes amolengava as almas, costumava esse famoso Rei do cangaço – Capitão Virgulino Ferreira da Silva – fincar-se de pé, nos altos dos tabuleiros, para contemplar, demoradamente e farto de orgulho, as vastidões do seu Reino, mantido na sujeição de seu ferro e sinal, a conquista numa grande guerra de vinte anos – a Guerra de Lampião!
‘’Sou senhor absoluto
De todo este Sertão
Aqui quem quiser passar
Precisa apresentar
Licença de Lampião’’
(Versos de Lampião)
Viveu Virgulino intensamente a sua infância, da qual a nostalgia o fizera versejar:
‘’Quando me lembro senhores,
Do meu tempo de inocente,
Que brincava nos cerrados
Do meu sertão sorridente’’.
Traçou posteriormente Lampião os anseios de seu ideal naquela época:
‘’Cresci na casa paterna
Quis ser homem de bem
Viver de meus trabalhos
Sem ser pesado a ninguém.
Fui almocreve na estrada...’’
Numa estrofe, sincera e sentida, Lampião lamentou as imposições do destino:
‘’Mas, o destino impiedoso,
Foi cruel para comigo.
E a sorte caprichosa
Me impôs este castigo.
Quando eu não esperava
Nem em tal coisa pensava
Tinha terrível inimigo!’’
Lampião foi um sentimental como todo poeta, de sangue quente como a maioria dos seus conterrâneos. Em 20 de outubro de 1922, houve um violento ataque de Lampião ao Município de Belmonte-Pe., onde, entre os mortos, ficou o prefeito Gonzaga, e na oportunidade foi criada essa quadra muito cantada pelo Sertão a fora:
‘’A aliança de Gonzaga
Custou um conto de réis;
Lampião botou o dedo,
Sem gastar nenhum ‘derreis’ ! ‘’
O rei do cangaço desafiava as autoridades cantando:
‘’Soldado que me enfrentar
Dá frio no coração
Porque já sabe que corre
E se for teimoso morre
Vai morar dentro do chão.’’
Certa feita, Lampião deteve-se num lugar chamado Baião, perto de Macapá (hoje Jati), e enviou ao Tenente Luís Rodrigues Barroso, comandante do destacamento local, uma carta à qual anexou o cartão assinado por Padre Cícero. Após a leitura, o tenente, devolvendo o cartão ao portador, exclamou:
-‘’Isto é um passaporte! Diga a Lampião que as portas estão abertas...’’
Às três horas da tarde entrou o rei do cangaço em Macapá com o seu grupo a cavalo, parando em frente a casa do Tenente Barroso. Apearam, todos formando um semicírculo e segurando suas montarias. A tropa lampeônica foi apresentada ao tenente um a um e explicada a origem dos seus nomes de guerra:
Maçarico, Aragão, Jurema, Nevoeiro, Pinica-Pau, Tenente, Mormaço, Cobra Verde, Andorinha, Moita-Brava, Açucena, Cuscuz, Luís Pedro, Moreno, Três Pancadas, Três Cocos, Chumbinho, Pensamento, Juriti, Meia Noite, Criança, Cancão, Coqueiro, Sabiá, Chá Preto, Barra Nova, Bentivi, Lasca Bomba, Azulão, Gato Bravo, Beija Flor, Bom Devera, Pai Velho, Maquinista, Cravo Roxo, Jararaca, Candeeiro, Vereda, Serra do Mar, Lua Branca, Vinte e Dois, Colchete, Delicadeza, Fogueira, Arvoredo, Cajueiro. A maioria de Pernambuco: Villa Bella (hoje Serra Talhada), Floresta, Pajeú, Flores e Triunfo, todos entre 18 e 30 anos de idade, todos brancos ou amorenados com exceção de alguns curibocas e dois negros.
Lampião se reuniu com o Tenente Luís Rodrigues Barroso e Veríssimo Alves Gondim (comandante de volante), o Sargento Antônio Gouveia e outros componentes da polícia Militar cearense, para uma conversa informal, amistosa e animada, acompanhada de galinha assada e regada a vinho e cerveja. Depois, no meio da rua, ordenou aos sanfoneiros que tocassem ‘’Mulher Rendeira’’. E, enquanto improvisava loas, os cabras, em roda, xaxavam e cantavam o famoso estribilho:
‘’Ô, ô, Mulë Rendêra
Ô, ô, Mulé rendá
Chorô pru mim num fica
Soluçô vai no borná’’
A vibração dos acordes desta canção guerreira contagiou os militares e todo o povo. De súbito, entusiasmado, todos imitavam os alegres visitantes... Horas inesquecíveis, de alegria e festa, as que Lampião veio trazer àquele pedaço de Sertão perdido no Cariri.
Doutra feita, Lampião encontrava-se em Cabrobó onde passou o dia em companhia do Coronel Epaminondas, e após o jantar em frente ao chalé patriarcal do Coronel, sentou-se no sofá de jacarandá. Pessoas gradas da terra lhe faziam a corte. Reuniram-se sessenta cangaceiros defronte, no meio da quadra, enquanto os outros restantes permaneciam no serviço de vigilância e bloqueio da localidade. Esses sessenta formaram grande roda. Sacaram os instrumentos do conjunto seu regional: viola, sanfona, reco-reco, maracá, realejo e pandeiro.
Sob as mungubeiras, candeeiros e bugirões acesos e fumacentos, iluminavam de sua luz fulva o cenário, atirando reflexos de ocre no rosto daqueles sessenta artistas em movimento, com suas indumentárias e apetrechos bélicos característicos, para a apresentação, durante duas ininterruptas horas, de deslumbrante espetáculo de arte cangaceiresca. Interminável o repertório! Cantos em vários modos, desde o solista e o de coro, ao dos repentistas... Xaxados, baiões, cocos e outras danças... Uma animação que fazia o povo, ao derredor assistindo, vibrar em aplausos quase sem parar. De todas, a apresentação mais aplaudida pelos assistentes e várias vezes repetida a pedido, foi o animado ‘coco sertanejo’ ao qual se braiaram com os cabras as cabrochas mais salientes da terra.
-‘’Não tenho medo da puliça
Nem do ronco quela tem.
Mangangá também ronca
Vai se ver, não é ninguém...’’
Logo respondia o coro, uníssono e batendo palmas:
-‘’Ôi, amarra esse bode,
Que esse bode morde!
Ôi, segura esse bode,
Que esse bode dá’’
No meio da grande roda movimentada, os dançarinos, sapateando em fortes batidas de cadência binária, gingavam o corpo no rebolado e nas umbigadas, ao mesmo tempo que cantavam sincronizando com o coro quando dizia:
‘ ‘’Amarra esse bode...
segura esse bode...’’
Esse era o mundo de Lampião: guerrear, dançar, cantar, tocar e compor. Às vinte horas, por anterior determinação de Lampião, veio Ioiô Barreto lembrar-lhe o momento de retirar-se. Infindáveis foram os agradecimentos e despedidas. Apertava Lampião, com muito cavalheirismo e indistintamente, a mão de cada um.
Na mesma ordem retomada quando da entrada, deixaram a Vila os cangaceiros cantando a ‘’Mulher Rendeira’’.
‘’Ô, ô, mulé rendeira,
Ô, ô, mulé rendá,
Tu m’insina a fazê renda
Eu t’insino a guerriá’’
Ou então:
- É Lamp...é Lamp...é Lamp...
- É Lamp... é Lampião...
- Meu nome é Virgulino.
- Apelido Lampião
- É terror dos macacos,
- Mas amor do meu sertão!...
-
18 de novembro: toda a cabroeira de Lampião faz um baile de xaxado na casa de Chico Eusébio, a umas quinhentas braças da Vila de Nazaré, onde estavam muitos inimigos e a polícia.
No dia 22 de outubro de 1928: Lampião invade Queimadas na Bahia, onde fuzila 7 soldados e o Juiz de Direito é obrigado a sair com o cangaceiro arrecadando dinheiro no comércio. Assistiram filme no cinema e fizeram um baile com muito xaxado no clube principal.
Mas, sem dúvida alguma, a herança mais bonita deixada pelos cangaceiros de Lampião foi o xaxado. Em Serra Talhada esta dança é cartão postal do movimento histórico e cultural representado pelo Grupo de Xaxado ‘’Cabras de Lampião’’.
X A X A D O
‘’O Xaxado, a nossa dança regional, chamada dança de cabra macho, foi cantada e dançada pela primeira vez nas barrancas do Riacho de São Domingos, no Município de Serra Talhada.
‘’A música, a dança, era naquele tempo dos cangaceiros a diversão, as brincadeiras das noites de penilúnio5. Eles tinham vida nômade, eram os marginalizados, carentes de amor, de compreensão, de fraternidade, de tudo enfim. Então se reuniam, nos terreiros das fazendas, tocavam sanfona, cantavam e dançavam o xaxado. Era dança de cabra macho porque no cangaço ainda não eram admitidas as mulheres, daí eles dançarem com o bacamarte que fazia as vezes da mulher e era chamado de ‘’minha cara Bina’’.6
‘’Xaxar é uma currutela de sachar.7 Quando os cangaceiros não estavam em combates, perseguindo ou fugindo dos inimigos, caiam numa terrível depressão e tédio. Foi pela necessidade que surgiu o xaxado, arrastar os pés como no trato com as roças de feijão, e cada um, segundo o espírito brincalhão e gaiatice, faziam as piruetas que vinham à cabeça. Normalmente dançavam em fila indiana com o da frente puxando as loas e o restante respondendo.
Aos poucos o xaxado e ‘’mulher rendeira’’ caminhavam para virar moda entre outros grupos de cangaceiros.
‘’Olé mulher rendeira
Olé mulher rendá
Tu me ensina a fazer renda
Que eu te ensino a namorar
(ou que eu te ensino a guerrear)
Gradativamente, vieram as variações de acordo com a origem dos cangaceiros. Por exemplo, um cangaceiro vindo da Paraíba, mais precisamente da Serra do Teixeira, muitas vezes cantava e mexia o corpo diferente de outro vindo de Cabrobó ou Bahia. Daí foram surgindo os diferentes passos.
Uma das grandes características do xaxado é a emissão de sons produzidos pela sandália de rabicho ao ser arrastada no chão na cadência do passo proposto.
Muitos afirmam que Lampião era místico, mágico, artista,... talvez faltasse o adjetivo. Lampião foi sanfoneiro, repentista, cantador, poeta... eles foram artistas do palco da caatinga para a posteridade. Ernest Ficher afirma que ‘’a função essencial da arte para uma classe destinada a transformar o mundo não é a de fazer mágica e sim a de esclarecer e incitar a ação’’( A Necessidade da Arte),
‘’Mazelas que geraram o cangaço no início do século XX continuam presentes, doendo e supurando na atualidade, na entrada do terceiro milênio’’, por isso mesmo é que ao escrever sobre o cangaço, temos a responsabilidade e o cuidado de preservar a cultura e a arte populares. ‘’Uma nação que olha para trás e não tem o que contar dos seus antepassados se perde no presente e ... nem se fala no futuro ! ‘’
Anildomá Willans de Serra Talhada, assim como Franklin Machado em Feira de Santana, conseguiram enxergar no meio dessa monstruosidade que foi o cangaço, o ‘’pós Lampião, enfatizando sua influência no perfil da cultura nos dias atuais’’.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FACÓ, Rui. Gangaceiros e Fanáticos. 2a edição. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro. 1965.n
MACIEL, Frederico Bezerra. Lampião, Seu Tempo e Seu Reinado Vol. I . Rio de Janeiro. Vozes. 1985.
SOUZA, Anildomá Willans de. Xaxado: Dança de Guerra dos Cangaceiros de Lampião.1999. Serra Talhada.PE.
[1] De bons costumes
[2] O ingresso de Virgulino no banditismo devido à morte do seu pai, hoje é totalmente comprovada como falsa. O pai de Lampião morreu em Alagoas, quando ele já era bandido e fazia parte do grupo dos Porcino (vide o Canto do Acauã, livro de memórias de Manoel Flor).
[3] Vide o Livro de Frederico Bezerra Maciel, intitulado: ‘’Lampião, seu Tempo e Seu Reinado’’. Poderemos ler na página 142 do VOL. I, como eram as festas na casa dos pais de Virgulino.
4 Nota de rodapé página 144 da obra citada
5 Lua cheia
7 Só se xáxa ou (sacha) feijão de arranca. Os agricultores xaxam o feijão juntando a terra com uma enxada pequena no pé do caule do broto com poucos dias de nascido
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